Sobre mágica, semiose e o letramento científico

22 de Março de 2013 at 10:42 Deixe um comentário

Mario Donadon Leal

Graduado em Letras pela UEM – aluno de Metodologia da Popularização do Conhecimento Científico

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Imaginem vocês se o apresentador do circo apresentasse o ilusionista assim: “E agora, crianças, o maior mágico do planeta! Ele vai fazer coisas e pessoas aparecerem e desaparecerem, dividirem-se e multiplicarem-se. Vocês verão o mundo se transformar inexplicavelmente, mas não sem explicação, pois o nosso mágico vai revelar para vocês todos os truques… Vocês querem aprender os segredos do mágico?” Claro que as crianças responderiam: “Queremos!” Sabemos que os mágicos fazem do conhecimento um segredo protegido por regras contra a sua divulgação; e isto nos faz refletir sobre a popularização científica: será que a ação dos signos, ou semiose do mágico tem alguma coisa a ver com a popularização da ciência?

Desde o princípio da história cultural existem a mágica e o segredo em torno dela, aliás, grande parte do efeito mágico vem do feito secreto. O mágico não aparece como um ser humano qualquer, sua função é transcender-nos, ou melhor, é a mágica o elemento transcendente, aparece do alto, como um deus ex machina. Esta linguagem secreta, vinda do alto, expressa o dualismo realidade-ilusão; ou seja, os movimentos do ilusionista (significante real) mostram um Ser (significado), mas ocultam o seu equivalente ontológico. Analisemos o trabalho do mágico: com seus movimentos produzindo, secretamente, os significados diferentes, distantes, esquivos ou contrários aos significados esperados pelo público interlocutor, o ilusionista segue conduzindo com habilidade a expectativa da plateia, levando-a ao lugar da surpresa, o ponto em que o efeito máximo é revelado de súbito, sem deixar pistas das causas. Ora, se é assim, então existe entre os conhecimentos do mágico, para além das habilidades de prestidigitador, um específico conhecer científico expresso em sua atuação, mas que ele esconde, por receio de perder as credenciais do país dos magos.

Ninguém deseja, porém, ter este espírito de segredos a perambular pelos laboratórios, uma vez que abraçamos com simpatia a razão democrática de engajamento popular no letramento científico, segundo a qual o princípio a se seguir é o oposto ao do mago dos segredos; é o princípio da circulação do conhecimento entre os agentes sociais, como os educadores, economistas, jornalistas, sociólogos, museólogos, mas também os pedreiros, jardineiros, domésticos etc.

Mas quais são, pelo ponto de vista da semiótica, os melhores pontos de contato entre a mágica, como linguagem secreta, e a ciência, na posição de decifradora daquela? Talvez a ciência possa ser tomada como interpretante privilegiado para uma criança, nas arquibancadas do circo, desejosa de também fazer como o mágico: realizar a diferença no ambiente físico, fazendo emergir a sua própria objetividade. Para ajudá-la nesta realização, observemos a atuação do ilusionista através da lente triangular da semiótica de Charles Sanders Peirce.

Aceitemos, por um momento, o seguinte: 1) o signo é a atuação do mágico, é a expressão ambígua, manifestada por ele nos seus movimentos explícitos, mas ilusórios, ostentados para confundir e dissimular causas ocultas, por debaixo da manga ou da cartola etc; 2) o objeto, correlato ao signo, pode ser simultaneamente lido como o significado (a mágica, o aparecer, o inexplicável) do signo; ou como o efeito de alguma causa determinada, mas encoberta pela relação entre as coisas e o mágico, produtor da ação física ambígua; 3) enquanto o mágico mantém seu conhecimento em segredo, ele neutraliza, ou pelo menos tenta neutralizar, o terceiro elemento da irredutível tríade de Peirce, o interpretante, sendo este elemento necessário e fundamental para a existência das relações de significação entre causas e efeitos; e entre significante e significado [FIG. 1]. Com efeito, a estrutura secreta do mágico visa confundir e neutralizar a possibilidade de interpretação de seu público; e ele consegue essa façanha guardando, em sua própria caixa de segredos, o seu interpretante, ou seja, ele não divulga o seu rol de significados-tipo que abarca, como diz Peirce, “todas as suas óbvias deduções necessárias” (5.165). Bem, tudo isso é do lado do ilusionista, mas o que ocorre do lado da criança?

Como é, segundo o ponto de vista dessa lente triangular da semiótica, que a criança percebe o mágico e sua mágica? É certo que a criança, assim como qualquer ser vivo, realiza-se na experiência, mas quais são as possibilidades de a criança experimentar a sua própria realização, por meio de interações subjetivas com o ilusionista e sua mágica, de modo a compreender o contexto e a condição dos signos colocados em ação?

Se não for depender exclusivamente do ilusionista, que transforma o interpretante num segredo, a criança possui, entre outras, estas alternativas: 1) ela pode interpretar, com seu interpretante particular, a atuação do mágico (signo) e aquele algo inexplicável (objeto) como se fossem uma coisa só, um signo-objeto, ou seja, um ícone [FIG. 2]; 1.1) neste caso, ou ela transforma o ícone em fetiche, passando por cima de qualquer tentativa de interpretar aquela parte inexplicável da mágica, não porque queira, mas porque desenvolve um interpretante fetichista; 1.2) ou ela transforma o ícone em arte, acrescentando uma parte do ponto de vista do mágico à vida, às suas atividades diárias e, assim, por intuição, inventa para si aquilo que Peirce chama de ícone de relação, agindo, ela também, como ícone, ou antes como diagrama do deus ex machina; 2) a criança pode, ainda, buscar os interpretantes disponíveis na família, na comunidade ou na escola, com intuito de desenvolver, com o tempo, seu interpretante especializado; 2.1) ela, assim, pode perseguir com diligência a atividade de mágico e tornar-se no futuro, ela própria, um ilusionista, aceitando as regras de proteção aos segredos da profissão; 2.2) ou ela pode passar a frequentar os ambientes de alfabetização e letramento científico, onde irá aprender a reconhecer, nas impressões explícitas ou implícitas deixadas pelo mágico, aqueles sintomas ou indícios das verdadeiras causas para o efeito espetacular da mágica [FIG. 3].

Eis, então, os nossos dois melhores pontos de contato entre a linguagem secreta do ilusionista e a linguagem coletiva do cientista expressos, aqui, nas alternativas 1.2 e 2.2, sendo que uma alternativa depende principalmente dos talentos da criança; e a outra depende especialmente das políticas de alfabetização e letramento do conhecimento científico.

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Literatura básica

Deely, John. Semiótica básica. São Paulo: Ática, 1990;

Eco, Umberto. Lector in fabula – Leitura do texto literário. Lisboa: Editorial Presença, 1979.

 

Literatura avançada

Eco, Umberto. Tratado geral de semiótica. São Paulo: Perspectiva, 1971;

Peirce, Charles Sanders. Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 1977;

Guattari, Félix. Caosmose – Um novo paradigma estético. São Paulo: Ed. 34, 1992, col. Trans.

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