Ensino básico precário induz à impopularidade da ciência

27 de Março de 2013 at 8:27 Deixe um comentário

Mario Donadon Leal

Graduado em Letras pela UEM – aluno de Metodologia da Popularização do Conhecimento Científico

023Se hoje nos defrontamos com a necessidade de desenvolver metodologias para a popularização do conhecimento científico, é porque precisamos apontar diretamente à ocorrência expressiva da impopularidade da ciência, ocorrência esta induzida pelos efeitos daquilo que Gaudêncio Frigotto, professor de Economia Política da Educação da Universidade Federal Fluminense, chama de “negação histórica ao efetivo direito (à) educação básica pública de qualidade”.

Ao analisar o caso específico do ensino médio, Frigotto nos apresenta os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad, 2011): “dezoito milhões de pessoas entre 15 e 24 anos estão fora da escola e 1,8 milhão, em idade de estar no ensino médio, não o estão frequentando. Na faixa de entrar na universidade (18 a 24 anos), 16,5 milhões de jovens, ou seja, 69,1% não estudam. Pode-se concluir que o Brasil não tem de verdade ensino médio.”

Frigotto tira esta alarmante conclusão em artigo, Ensino Médio e técnico profissional: disputa de concepções e precariedade, escrito para a edição brasileira do Le Monde Diplomatique, no qual desenvolve uma crítica às políticas de “precarização geral do ensino no país”, como diria Demerval Saviani. Segundo Frigotto, tais políticas afastam da educação básica a formação profissional; criando uma “dualidade estrutural que separa a formação geral da específica (…) − uma concepção que naturaliza a desigualdade social postulando uma formação geral para os filhos da classe dominante e de adestramento técnico profissional para os filhos da classe trabalhadora.” É assim que Frigotto nos indica a consequência mais cruel destas políticas, desenvolvidas por “investidores sociais” como as fundações Roberto Marinho e Itaú Social, entre outras, com o aval do Estado: a consequente degradação da “cidadania política”, impedindo o acesso popular aos “instrumentos de leitura da realidade social que permitam ao jovem e ao adulto reconhecer seus direitos básicos, sociais e subjetivos e lhes confiram a capacidade de organização para poder fruí-los.” Aos que desejam conhecer as razões e conclusões de Frigotto, acessem o endereço eletrônico abaixo.

De nossa parte, valorizamos a exploração dos caminhos para a democratização efetiva do conhecimento científico, por meio, sobretudo, da alfabetização e letramento na linguagem formal da ciência. O que nos importa, nesta pequena coluna virtual, é, tão-somente, postar algumas questões na rede, as quais nos levem a hipóteses produtivas; portanto vamos a elas.

Em que medida é possível falar de democracia do letramento em linguagem científica neste contexto, no qual quase setenta por cento dos jovens, em idade de ingresso na universidade, estão fora da escola e sem estudar? E o que dizer da separação entre uma “formação geral para os filhos da classe dominante” e um “adestramento técnico profissional para os filhos da classe trabalhadora”? Este fato não prejudica o entendimento do que vem a ser ciência, especialmente aos estudantes da classe trabalhadora, a qual toma, como se fosse ciência, o doce licor da técnica profissionalizante? E quando procuramos traduzir um fato científico, de seu jargão especializado para o dialeto popular, não estamos, talvez, fazendo como as políticas educacionais criticadas por Frigotto, ou seja, construindo, também nós, um “castelo de areia”? Não deveríamos, antes, procurar lutar por “fundos públicos para uma escola básica que inclua o ensino médio público, laico, gratuito e universal”? E, por fim, a pergunta que nos inspira a pensar na impopularidade, quando buscamos metodologias de popularização da ciência: não parece que é a própria “precarização geral do ensino no país” o fator indutor da impopularidade dos conhecimentos científicos? São questões provocadoras, mas elas não podem ser silenciadas; pelo contrário, devem circular e movimentar o debate. Pena que, logo de início, pelo menos 70% dos jovens não vão se interessar por elas.

 

Onde encontrar o artigo de Frigotto:

Frigotto, Gaudêncio. Ensino Médio e técnico profissional: disputa de concepções e precariedade; in Le Monde Diplomatique Brasil – Edição 68, Março de 2013. Leia o artigo na íntegra em:

http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1384

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