Micotoxinas, o veneno nosso de cada dia.

2 de Novembro de 2013 at 11:25 2 comentários

Fernando Carlos de Sousa
Professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná – UTFPR, Campus Dois Vizinhos
Doutorando em Ciências Biológicas – Universidade Estadual de Maringá

 Maria Raquel Marçal Natali
Professora da Universidade Estadual de Maringá

01Micotoxinas são substâncias produzidas por fungos que possuem efeitos tóxicos em humanos e animais. Diversas espécies de fungos que contaminam colheitas de grãos, como arroz, aveia, centeio, milho e trigo, produzem micotoxinas. Como esses grãos formam a base da alimentação dos seres humanos e dos animais de produção, o estudo das micotoxinas tem provocado crescente interesse científico e econômico. Estima-se que os prejuízos causados pelas micotoxinas devido a redução do desempenho e aumento da mortalidade de animais de produção seja da ordem de bilhões de dólares por ano. Além disso, doenças causadas ou agravadas pela ingestão de micotoxinas causam grandes custos para os sistemas de saúde.

Há muito tempo se sabe que o consumo de alimentos mofados faz mal à saúde. Existem relatos na China de mais de 3000 anos atrás sobre os efeitos da contaminação de alimentos por fungos. Ao longo da história diversos surtos de intoxicação de animais e humanos por alimentos contaminados por fungos foram registrados. Entretanto, apenas em 1961 a aflatoxina foi a primeira micotoxina a ser isolada e quimicamente caracterizada e, infelizmente, o Brasil teve um papel ingrato nesta história. Durante a primavera de 1960 na Inglaterra em poucos dias cerca de 100 mil perus morreram. Observou-se que os animais começavam a ter sintomas neurológicos, depois entravam em coma e então morriam. Essa condição foi chamada em inglês de “turkey X disease” ou doença X do peru, em português. A investigação da causa da morte destes animais levou a descoberta de que o amendoim importado do Brasil e utilizado na alimentação dos perus continha micotoxinas. De amostras deste amendoim foi isolada e caracterizada quimicamente uma micotoxina produzida pelo fungo Aspergillus flavus e que por isso recebeu o nome de aflatoxina (Aspergillus+flavus+toxina).

02A descoberta da aflatoxina fez com que aumentasse muito o estudo de fungos que contaminam alimentos, em busca de novas micotoxinas. Atualmente são conhecidas mais de 400 micotoxinas. Apesar do grande número de micotoxinas conhecidas, algumas são mais importantes, por serem tóxicas mesmo em pequenas quantidades, ocorrerem em diversas partes do mundo e serem resistentes às transformações que as matérias primas sofrem ao longo da cadeia produtiva de alimentos fazendo com que estejam presentes em alimentos industrializados e prontos para o consumo humano e de animais. As principais micotoxinas conhecidas atualmente são a aflatoxina, ocratoxina, ergot, fumonisinas, zearalenona e os tricoteceneos. Essas micotoxinas são produzidas por diferentes espécies de fungos e possuem diferentes efeitos tóxicos e estão presentes em alimentos para consumo humano e animal. Para se ter uma ideia da extensão da presença de micotoxinas nos alimentos que consumimos no dia a dia, basta citar que pesquisa recentemente realizada pelo Laboratório de Toxicologia da Universidade Estadual de Maringá foram adquiridos em mercados de diversas regiões do Paraná vários produtos à base de milho, como fubá, pipoca e quirela, sendo constatado que 82% das amostras apresentavam contaminação com micotoxinas do grupo das fumonisinas.

Interessantemente algumas substâncias que foram inicialmente descobertas como micotoxinas acabaram sendo de grande utilidade. Por exemplo, alguns componentes do ergot apresentam um potente efeito vasoconstritor, isso é muito ruim para quem está intoxicado com grandes doses de ergot, pois pode haver uma redução tão intensa da circulação sanguínea em algumas regiões do corpo que pode levar a pessoa à morte. Por outro, lado a partir destes componentes do ergot foram desenvolvidos medicamentos que ajudam a controlar hemorragias, por exemplo, para evitar que a mãe morra em uma hemorragia pós-parto. Outra micotoxina que encontrou seu lugar na história da ciência foi a muscarina que é uma potente toxina produzida pelo cogumelo Amanita muscaria. A intoxicação com muscarina, ou muscarinismo, é letal em muitos casos, mas os estudos sobre como essa toxina atua levaram a importantes descobertas e ela foi muito utilizada como uma ferramenta de pesquisa em neurociência e ainda hoje se usa o termo “receptores muscarínicos” para se referir a importantes proteínas encontradas em alguns neurônios e onde a muscarina se liga desencadeando seus efeitos. Outras micotoxinas são utilizadas como drogas alucinógenas, e destas, a mais famosa é o ácido lisérgico um componente do ergot a partir do qual foi produzido o LSD, ou dietilamida do ácido lisérgico. Infelizmente existem evidências de que micotoxinas também já foram usadas como armas químicas. Acredita-se que durante os anos de 1970 e 1980 tricotecenos tenham sido pulverizados por aviões sobre refugiados no Camboja, Laos e Afeganistão formando o que ficou conhecido como “chuva amarela”.

03Buscando proteger seus cidadãos diversos países e blocos de países têm desenvolvido legislações que limitam a quantidade máxima de micotoxinas nos alimentos. No Brasil, até 2011 tínhamos legislação apenas para limites de aflatoxinas, mas, desde então, está em processo de implantação uma nova legislação que impõe limites para os principais tipos de micotoxinas conhecidas. Essa nova legislação brasileira pretende reduzir gradualmente entre 2011 e 2016 os níveis de micotoxinas em grãos e alimentos para humanos e animais. Entretanto, a contaminação de plantações por fungos e a produção de micotoxinas é muito influenciado por fatores climáticos sobre os quais não temos controle. Assim, variações na quantidade e distribuição de chuvas e oscilações nas temperaturas podem causar grandes aumentos na contaminação dos grãos. Além disso, as legislações impõem limites para micotoxinas individualmente e muitas pesquisas têm demonstrado que é comum encontrar alimentos contendo diversas micotoxinas que estão individualmente abaixo dos seus respectivos limites máximos tolerados mas que possuem efeito sinergístico o que confere toxicidade ao alimento mesmo este atendendo às normas legais vigentes.

O Brasil é um dos maiores produtores de grãos do mundo e as exportações desses produtos são fundamentais para a nossa economia, além disso a população brasileira consome muitos produtos derivados destes grãos, assim é fundamental que existam pesquisas para avaliar os efeitos das micotoxinas presentes nos alimentos para orientar as políticas públicas. Neste sentido, o Laboratório de Neurônios Entéricos da Universidade Estadual de Maringá tem desenvolvido pesquisas pioneiras sobre os efeitos de micotoxinas sobre diferentes espécies animais buscando contribuir com conhecimentos sobre os mecanismos de toxicidade das micotoxinas e com alternativas para se lidar com a contaminação de alimentos.

*Img 01: Clareamento em espigas de trigo conhecido como fusariose ou giberela. Geralmente causado por fungos do gênero Fusarium, como F. graminearum que produz a micotoxina deoxinivalenol.

*Img 02: Espiga de milho contaminado pelo fungo Fusarium verticillioides produtor de micotoxinas conhecidas como fumonisinas. 

*Img 03: Amendoim contaminado com o fungo Aspergillus flavus produtor da micotoxina aflatoxina.

Entry filed under: Sem categoria. Tags: .

O Skate e a Física Animais de volta à vida

2 comentários Add your own

  • 1. Aline  |  4 de Novembro de 2013 às 21:54

    Parabéns Professo Fernando!

    Responder
  • 2. Sônia  |  2 de Novembro de 2013 às 13:05

    Parabéns pelo artigo Fernando! Muito interessante!! Adorei!
    Abraço!

    Responder

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Site do MUDI

Arquivo


%d bloggers like this: