Johanna Döbereiner, a cientista que mudou os rumos da agricultura brasileira

28 de Março de 2014 at 18:14 Deixe um comentário

Por: Marcelo Biondaro Góis

Doutorando em Biologia Comparada – PGB – UEM

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            Consagrada como uma das maiores cientistas brasileiras, Johanna Liesbeth Kubelka nasceu em 28 de novembro de 1924 em Aussig na então Tchecoslováquia. Cursou a escola secundária numa escola alemã de Praga e viveu nessa cidade até o final da segunda guerra mundial. Seu pai foi preso durante a guerra (1939/45), porque ajudava judeus a fugirem da perseguição nazista e sua mãe foi presa em campo de concentração, onde morreu em 1945. No mesmo ano, Johanna, seu pai e seus avós paternos foram expulsos pelos tchecos para a Alemanha. Seu pai, apesar de ter sido professor universitário até então, conseguiu emprego em uma fazenda nos arredores de Munique, onde Johanna teve seu primeiro contato com a Agronomia, ela selecionava manualmente trigo para melhorar a produção. Entretanto, desde menina, envolvia-se com as lidas na agricultura. Somente após a guerra, aos 21 anos, é que, nos escombros de uma Europa destruída e dilacerada, ela pôde iniciar uma vida normal. Em 1946 ingressou no curso de Agronomia na Universidade de Munique. Na Universidade, além do diploma, conquistou o estudante de medicina veterinária Jurgen Döbereiner que se tornou seu marido e companheiro para sempre e com quem viria para o Brasil em 1950 se encontrar com o pai que havia se mudado quatro anos antes.

            Estabelecidos na cidade do Rio de Janeiro, Johanna Döbereiner (nome de casada), foi contratada em março de 1951 para assistente de pesquisa do Dr. Álvaro Barcellos Fagundes, diretor do Serviço Nacional de Pesquisas 12Agronômicas do Ministério da Agricultura (SNPA), e passou a trabalhar no Laboratório de Microbiologia de Solos. O SNPA posteriormente se transformaria na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), onde ela trabalhou até o final de sua vida. Em 1956, se naturalizou brasileira. Teve três filhos, Maria Luisa (Marlis), Christian e Lorenz, e dez netos.

            A jovem nascida na Tchecoslováquia só tornou-se uma agrônoma de fato no Brasil e atribuía muito do que a tornou, posteriormente, uma das cientistas mais respeitadas do País, ao Dr. Álvaro. “Quando eu soube da existência do SNPA, não tive dúvidas, decidi que seria ali que queria trabalhar. Não foi fácil entrar, cheguei a propor que trabalharia sem nada receber’’. Esse foi o inicio de sua formação científica, ocorrida quase toda no Brasil, pois só posteriormente estudou e pesquisou no exterior, em 1963 fez mestrado na Universidade de Wisconsin (EUA).

            Durante 49 anos dedicou-se com paixão ao seu trabalho, pois este era a motivação de sua vida. Ela demonstrou que, na sojicultura no Brasil, era possível recorrer-se a certos tipos de bactérias que fixam o nitrogênio a partir do ar, uma espécie de simbiose, dispensando o adubo mineral, caro e nocivo ao meio ambiente. Com isso, o Brasil tem economizado anualmente cerca de 1 bilhão de dólares desde a década de 1960, quando esta oleaginosa foi introduzida no Brasil.

            No contexto da época, a chamada “revolução verde” triunfava em vários continentes, pregando um modelo de13 agricultura baseado no emprego intensivo de sementes selecionadas, adubos químicos, inseticidas, herbicidas e máquinas, em sistemas de monocultura, explorados em grandes extensões de terra (Plantations). “Naquela época o pessoal me gozava, acho que realmente ninguém me levava a sério, porque não existia na literatura qualquer descrição da associação entre bactérias fixadoras de nitrogênio e plantas superiores” Comentava Johanna. Contudo a pesquisadora, que orgulhou os brasileiros e ajudou a transformar o País no segundo produtor mundial de soja (atrás só dos EUA).

            Foi Membro da Academia Brasileira de Ciências, Academia de Ciências do Terceiro Mundo e Academia de Ciências do Vaticano, organização que reúne 75 cientistas eminentes de várias partes do mundo. Publicou cerca de 350 artigos em revistas internacionais e brasileiras. Indicada ao Prêmio Nobel de Química em 1997, ganhou diversos prêmios, como o Bernardo Houssay (OEA, Agricultura, 1979), Unesco (1989), Frederico Menezes Veiga (Embrapa, 1976), Ciência e Tecnologia do México (1992); condecorada por inúmeros governos, como o do Brasil e da Alemanha é Doutora Honoris Causa de várias Universidades do mundo. Tudo foi pouco diante da grandiosidade da mulher arrojada que adotou o Brasil como pátria, mas talvez não tenha sido acolhida como merecia, premiada centenas de vezes e indicada ao Prêmio Nobel de Química, deixou muitos discípulos, mas morreu, em 2000, sem ser conhecida (e reconhecida) pelo grande público. O anonimato, uma característica típica dos cientistas que valorizam muito mais suas inserções nos veículos acadêmicos, foi bem evidenciada na vida de Johanna.

            Aos 75 anos, Johanna morreu de problemas neurológicos, em Seropédica (RJ), na mesma casa onde morou por todo o longo tempo que viveu no Brasil. Entrou para a história da Ciência mundial. Faltaram mais homenagens e agradecimentos por tudo o que ela fez. Ciência com aplicabilidade direta na vida cotidiana dos brasileiros e que pode se resumir em: a fixação biológica de nitrogênio é uma realidade e a soja nacional está aí para comprovar.

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