Galhas entomógenas: a reprodução de insetos através de partes vegetais

24 de Abril de 2015 at 13:12 Deixe um comentário

Por: Raísa Gonçales

Bióloga. Mestranda em Biologia Comparada – PGB – UEM.

Alguns insetos passam por metamorfose para completar seu ciclo de vida. A metamorfose é o processo de transformação de um ser vivo ao longo de sua vida, modificando a forma do seu corpo, o tipo de alimentação e até o habitat onde ele vive. Ela pode ser completa ou incompleta, com uma fase ou várias, mas o fato é que existe uma variedade de maneiras para que o inseto se torne adulto. Alguns necessitam da água, outros de terra, de outros insetos ou outros animais.

Exemplo da metamorfose de um artrópode.

Mas chama a atenção o grupo de insetos que se utilizam de partes vegetais para se reproduzir. Esses artrópodes são conhecidos como insetos galhadores. Eles não compõem um gênero ou uma família em particular. Podem ser vespas, moscas e outros, que modificam a estrutura de um órgão vegetal, como uma folha ou um caule, para garantir o desenvolvimento da sua prole.

Galhas inseridas abaixo da epiderme de uma folha.

http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2009/09/notcont5992.jpg

Galha no caule.

http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/Repositorio/Sternechusgalha_000g09uultd02wx5ok026zxpgy1wubl5.jpg

Galhas inseridas abaixo da epiderme de uma folha.

http://www.petbio.ufv.br/informativo/68/artigo%202.png

De forma geral, o inseto insere seu ovo abaixo do tecido mais externo do órgão da planta, onde se desenvolve produzindo substâncias que induzem a alterações nos tecidos (figura 1 e 2), promovendo mudanças na anatomia (células e tecidos) e morfologia (forma externa) de parte do vegetal, em prol do desenvolvimento do ovo. Os tecidos ao redor do ovo se modificam formando uma câmara (figura 2) para a proteção do mesmo, ou seja, um ambiente livre de predadores e patógenos causadores de doenças. Os nutrientes podem ser manipulados para se concentrarem nos tecidos próximos ao ovo e prover nutrição ao indivíduo até estar desenvolvido e poder sair da planta.

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Figura 1: Mesófilo da folha de Pitangueira (Eugenia uniflora) sem a formação de galhas.

Fonte: Raísa Gonçales.

 

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Figura 2: C – Câmaras utilizadas para desenvolvimento do ovo no mesófilo da folha de Pitangueira (Eugenia uniflora).

Fonte: Raísa Gonçales.

Os insetos galhadores são extremamente específicos, utilizando sempre a mesma espécie de planta para completar seu ciclo de vida. Essa especificação se desenvolveu através da coevolução com essas plantas, ao longo de muito tempo. A coevolução é o processo onde duas espécies afetam a evolução uma da outra de forma recíproca, ocorrendo entre espécies que tenham alguma interação ecológica, como entre parasita e hospedeiro.

O estudo dessa associação é muito importante para a preservação de espécies de plantas e de insetos, pois grande parte dos insetos galhadores é responsável pela polinização de muitas espécies vegetais, além de servirem como alimento para outros animais. Dessa forma, vários estudos estão em andamento como o objetivo de elucidar cada vez mais a associação de insetos galhadores com plantas, pois promovem o conhecimento da qualidade ambiental, da biologia dos indivíduos, do ambiente em que vivem e da biodiversidade existente nestes locais.

A compreensão dos processos que envolvem a formação de galhas entomógenas também é importante para a agricultura. Algumas espécies de insetos formam galhas em plantas cultivadas, o que, em uma cultura, pode transformar-se em uma “praga” agrícola, que gere danos e prejuízos econômicos para o agricultor.

No entanto, é importante ressaltar, que o fenômeno da galha é considerado um tipo de parasitismo, que é uma interação ecológica envolvendo dois indivíduos. O parasita se aloja no corpo do seu hospedeiro e se alimenta do mesmo, mas não com intenção de prejudicá-lo, pois permanecendo vivo o alimento estará disponível sempre. Portanto, os insetos galhadores, em seu ambiente natural, não tem o objetivo de prejudicar a planta, pois pela regra, ela deve continuar saudável até que a prole esteja totalmente desenvolvida para sair. Além desse fato, o inseto vai sempre precisar da espécie para garantir a próxima reprodução. Assim, naturalmente, os insetos se organizam e não atingem a planta inteira, somente partes, para que não ocorra prejuízo de morte para o vegetal (figura 3).

Em um cultivo, as condições de solo, água, ar, abundância de indivíduos, podem gerar um desequilíbrio nesse sistema, que leve a prejuízos fatais para os vegetais.

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Figura 3: Galha da Pitangueira (Eugenia uniflora). As várias galhas se concentram em um pequeno ramo, deixando o restante da planta saudável para garantir a sobrevivência do vegetal.

Fonte: Raísa Gonçales.

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