Controvérsia acadêmica -Mesentério é um novo órgão?

6 de Fevereiro de 2017 at 15:36 1 comentário

Texto produzido pelo Prof. Dr. Eduardo Cotecchia Ribeiro, Professor Associado de Anatomia Descritiva e Topográfica – Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo.[i]

Vamos rever alguns conceitos já bem estabelecidos antes de dar minha opinião, cujo objetivo é colaborar com a discussão em pauta.

Tecido – formado por um grupo de células semelhantes que desempenha uma função especializada. Tipos: 1-epitelial (revestimento e glândulas); 2-conjuntivo (protege, sustenta, une e isola, sendo o mais abundante). Forma osso, cartilagem, gordura e sangue, cuja particularidade deste último é ter a matriz líquida (plasma); 3-muscular e 4-nervoso.

Órgão – formado por um grupo de tecidos (dois ou mais) que desempenha uma função específica. Alguns estudiosos complementam ao considerar que um órgão deve ter uma forma definida, como o coração, estômago, rim, entre tantos outros. Creio que nesse sentido estariam excluídas as túnicas como a pele e o peritônio, por exemplo.

Túnica (membrana) – envoltórios constituídos por tecido epitelial e tecido conjuntivo, como a mucosa, a serosa e a pele (cútis). Esta é considerada o maior órgão do corpo em diversos livros de Anatomia.

Deixando a polêmica de lado e considerando o conceito clássico de órgão, então devemos entender e aceitar as túnicas do corpo como sendo órgãos constituídos por dois tipos de tecidos.

Assim, o órgão é o peritônio (a mais extensa túnica serosa)todo e não somente uma de suas diversas projeções (reflexões) decorrentes do desenvolvimento embriológico, a exemplo do mesentério destacado pelos autores irlandeses.

Ainda devemos acrescentar que o peritônio é uma membrana extensa, contínua (partes parietal e visceral) e única, não fragmentada, que se molda e acompanha o complexo desenvolvimento do tubo digestório primitivo. Este fato justifica a importância de seu conhecimento anatômico aplicado à clínica.

FIGURA representando parte do intestino delgado com suas camadas de revestimento, e, evidenciando pela seta vermelha a direita o mesentério. Figura extraída de: TORTORA, G.J.; NIEGSEN, M.J. Princípios de Anatomia Humana. 12 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013, p. 874.

FIGURA representando parte do intestino delgado com suas camadas de revestimento, e, evidenciando pela seta vermelha a direita o mesentério. Figura extraída de: TORTORA, G.J.; NIEGSEN, M.J. Princípios de Anatomia Humana. 12 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013, p. 874.

Portanto, pelo exposto, não compartilho com a visão dos referidos colegas irlandese[i].

E mais, se eles propõem considerar o mesentério isolado e classificá-lo como órgão, deveriam também incluir os demais mesos que têm as mesmas características morfológicas de estrutura e função (mesocolo transverso, mesocolosigmóide, mesoapêndice, mesovário e até os omentos). Por que não?

Seguindo na mesma linha de raciocínio, deveríamos também considerar a pleura e o pericárdio como órgãos, por serem as outras duas túnicas serosas do corpo. OBS. As serosas apresentam um substrato de tecido conjuntivo com uma camada de células epiteliais secretoras, o mesotélio.

Para concluir, faço as seguintes considerações em relação ao que tem sido destacado por alguns profissionais da área ao justificar a proposta: 1- mesentério e produção de proteína C reativa. O fígado produz, tendo relação com processos inflamatórios em geral e não em particular com o mesentério; 2- doença de Crohn, comprometendo a parede intestinal e resultando em comprometimento do peritônio que reveste o intestino, como ocorre com a parte terminal do íleo; 3- paniculite mesentérica, comprometendo a gordura armazenada no mesentério, principalmente na sua raiz e, ocasionalmente, no mesocolo; isquemia mesentérica por obstrução dos vasos que fazem seu trajeto entre as lâminas do mesentério, entre outras alterações.

FIGURA representando peritônio e órgãos abdominais. Figura extraída de: TORTORA, G.J.; NIEGSEN, M.J. Princípios de Anatomia Humana. 12 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013, p. 876.

FIGURA representando peritônio e órgãos abdominais. Figura extraída de: TORTORA, G.J.; NIEGSEN, M.J. Princípios de Anatomia Humana. 12 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013, p. 876.

Portanto, os exemplos de problemas mencionados não são exclusivos do mesentério ou, em sentido mais amplo, do peritônio. São alterações primárias em órgãos que apresentam revestimento peritoneal e que podem refletir na proliferação da gordura que está armazenada na serosa, nos vasos sanguíneos e linfáticos que transitam entre suas lâminas ou em processo de fibrose do próprio peritônio, seja a parte que for desta ampla membrana de revestimento das paredes da cavidade abdominopélvica e seus órgãos.


[1] As notas de fim, figuras e suas legendas foram acrescentadas pela profa. Dra. Débora de Mello Gonçales Sant´Ana, do MUDI, visando ilustrar o texto e ampliar sua compreensão pelo público em geral.

[1] O autor do texto se refere ao artigo:

COFFEY, J.C.; O´LEARY, D.P. The mesentery: structure, funcion, and role in disease. Lancet GastroenterolHepatol 2016: 1: 238-247.

 

 

 

 

 

 

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1 Comentário Add your own

  • 1. Nathália  |  10 de Fevereiro de 2017 às 13:54

    Muito esclarecedor!!

    Responder

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