A compreensão da neurobiologia do Transtorno do Espectro Autista e a aplicação das neurociências na educação

13 de Fevereiro de 2019 at 8:40 Deixe um comentário

MYENNE TSUTSUMI

Psicóloga. Professora do Departamento de Psicologia UEL. Pós-graduanda em Neurociência – UEL

Talvez o principal desafio na Educação seja a inclusão daquilo que é diferente. O ensino parece ter sido pensado para abranger a todos, mas nem sempre obtém sucesso. A velocidade de aprendizagem vai ser o resultado de muitas variáveis, as quais nem sempre o professor terá acesso. No entanto, ao conhecer algumas especificidades, o professor poderá compreender melhor seus alunos e ajudá-los da maneira que puder a alcançar o sucesso.

Os transtornos do neurodesenvolvimento são vários e talvez o menos compreendido de todos seja o Transtorno do Espectro Autista, o qual recebe o nome de espectro por conta da diversidade de sintomas que os indivíduos podem assumir (APA, 2014; BORBA e BARROS, 2018). Irá ocorrer na população pessoas extremamente aptas as funções da vida diária, com habilidades excepcionais, como o caso de Temple Grandin (GRANDIN e PANEK, 2013), ou com severas dificuldades para aprender ou mesmo de autocuidados. O Transtorno do Espectro Autista é marcado por dificuldades de linguagem e de socialização com sintomas persistentes e pervasivos (AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION, 2012). Tais comportamentos podem prejudicar a inclusão dessas crianças no ensino regular e o professor em sala de aula pode auxiliar essas crianças de forma a adaptar o ensino.

Para tanto, esse professor pode lançar mão de conhecimentos neurocientíficos afim de compreender quais estratégias de ensino podem ser mais ou menos eficazes. É o caso da sugestão que Zwart e colaboradores (2018) fazem ao estudar sobre os tipos de aprendizagem e como elas ocorrem no cérebro autista. Eles sugerem que, apesar de algumas crianças autista apresentarem falas extremamente literais, apresentarem dificuldades de compreensão de linguagem figurada e mostrarem preferências por dicas concretas no tempo-espaço, o ensino poderia ser não somente focado na aprendizagem explícita, mas também no ensino de estratégias de aprendizagem implícita, como por exemplo, retiradas graduais de dicas ambientais.

O conhecimento neurocientífico a respeito de como o cérebro autista aprende, como a linguagem é afetada pela atipicidade do desenvolvimento e como os sintomas de comportamentos pervasivos podem afetar na aprendizagem dão ao professor ferramentas não só para a inclusão, mas também para o investimento na aprendizagem das crianças dentro do espectro. A interface cérebro-ambiente e a capacidade plástica do cérebro humano principalmente nos primeiro três nãos de vida, não são facilmente compreendidas por aqueles que, no seu dia a dia, lidam com tantas outras dificuldades. O investimento na capacitação dos professores – e aqui inclusa a educação em neurociências- poderá permitir que erros sejam evitados, como por exemplo, permitir que a criança com dificuldade de socialização permaneça sozinha, “por que ele tem um desejo de ficar sozinha”; ou por exemplo, que aquelas que não conseguem desenvolver a fala, nunca terão habilidades linguísticas. O diagnóstico das crianças deveria ser um gatilho para a imersão dela em um mundo melhor adaptado as suas necessidades e o quanto antes, e não ser um atestado de incapacidade. Ao conhecer sobre como funciona o cérbero autista, o professor terá pistas de quais possíveis dificuldades essas crianças apresentam e como contornar, algo que pode ir desde um processamento auditivo atípico (ver BERMAN e colab., 2016)até a maturação do córtex pré-frontal tardia (ver KAWAKUBO e colab., 2009).

Além disso, não somente compreender sobre o cérebro autista, o professor também pode auxiliar os pais sobre os tratamentos disponíveis com maior eficácia além de ser co-terapeuta dentro de sala de aula. Atualmente, o principal tratamento para os comportamentos inadequados característicos do autismo é a terapia analítico-comportamental (BORBA e BARROS, 2018; ROANE e colab., 2016) e há esforços científicos para a compreensão das mudanças neurais relacionadas a implementação das intervenções baseadas nessa ciência do comportamento (ver STAVROPOULOS, 2017).Essa abordagem lança mão de intervenções ambientais para a promoção de mudanças comportamentais. É nesse momento que o professor pode ser ativos no auxílio a esses alunos. Poderá aplicar procedimentos durante suas aulas, promover inclusão da criança autista com as demais crianças e incentivar o desenvolvimento da linguagem.

 

REFERÊNCIAS

 

AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Manual de publicação da APA. Porto Alegre: Artmed, 2012.

APA, Associação Americana de Psiquiatria. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais V. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

 

BERMAN, Jeffrey I. e colab. Multimodal Diffusion-MRI and MEG Assessment of Auditory and Language System Development in Autism Spectrum Disorder. Frontiers in Neuroanatomy, v. 10, n. March, 2016. Disponível em: <http://journal.frontiersin.org/Article/10.3389/fnana.2016.00030/abstract&gt;.

 

BORBA, M. M. C e BARROS, R. S. Ele é Autista: Como Posso Ajudar Na Intervenção? Um guia para profissionais e pais com crianças sob intervenção analítico-comportamental ao autismo. São Paulo: Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental (ABPMC), 2018. Disponível em: <http://abpmc.org.br/arquivos/publicacoes/1521132529400bef4bf.pdf&gt;.

 

GRANDIN, Temple e PANEK, Richard. O cérebro autista: Pensando através do espectro. Rio de Janeiro: Record Ltda, 2013.

 

KAWAKUBO, Yuki e colab. Impaired prefrontal hemodynamic maturationin autism and unaffected siblings. PLoS ONE, v. 4, n. 9, p. 6–13, 2009.

 

ROANE, Henry S. e FISHER, Wayne W. e CARR, James E. Applied Behavior Analysis as Treatment for Autism Spectrum Disorder. Journal of Pediatrics, conseguir todas as referências desse artigo. Fazer sumário com todas as terapias alternativas dentro da aba que eles analisam. Usar esse artigo como modelo que artigo sintético., v. 175, p. 27–32, 2016. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1016/j.jpeds.2016.04.023&gt;.

 

STAVROPOULOS, Katherine Kuhl Meltzoff. Using neuroscience as an outcome measure for behavioral interventions in Autism spectrum disorders (ASD): A review. Research in Autism Spectrum Disorders, v. 35, p. 62–73, 2017. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1016/j.rasd.2017.01.001&gt;.

 

ZWART, Fenny S. e colab. Implicit learning seems to come naturally for children with autism, but not for children with specific language impairment: Evidence from behavioral and ERP data. Autism Research, Lido, v. 11, n. 7, p. 1050–1061, 2018.

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