TDAH E IMPLICAÇÕES NO AMBIENTE ESCOLAR: PAPEL DA ESCOLA E DOS PROFESSORES

26 de Fevereiro de 2019 at 7:58 Deixe um comentário

Renato Mikio Moriya

Médico. Pediatra. Professor do Curso de Medicina da UEL. Pós-Graduando em Neurociências, UEL.

Dentre os assuntos mais discutidos na Educação, destaca-se a diversidade do comportamento de estudantes, bem como suas dificuldades de aprendizagem. Nesse contexto,  o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade  (TDAH), vem aumentando seu espaço nos ambientes escolares. .

TDAH está associado a uma grande variedade de prejuízos nas diferentes faixas etárias, incluindo crianças e adolescentes, em que a prevalência do transtorno pode atingir índices de 5,29% em diferentes países do mundo.  TDAH pode incluir comprometimento acadêmico – reprovações, abandono, suspensões, expulsões. Podem, ainda, apresentar dificuldades sociais, entre elas uma menor frequência de comportamentos pró-sociais, como compartilhamento da atenção e alternância de turnos, o que pode gerar hostilidade na relação com os pares. Há evidências de que as crianças e adolescentes com TDAH podem ter menos amigos íntimos, apresentando maior rejeição pelos pares, além de poderem se envolver em mais comportamentos de risco, terem menos relações estáveis e maiores índices de divórcio na vida adulta.

O presente relatório constitui um trabalho acadêmico e originou da necessidade de gerar subsídios para os profissionais da Educação trabalharem com crianças e jovens com distúrbios de atenção/hiperatividade, buscando indicar caminhos para o enfrentamento da patologia em vista de uma efetiva aprendizagem.

A hiperatividade é um problema de saúde mental que tem três características básicas: distração, agitação e impulsividade. Esse transtorno pode levar a dificuldades emocionais, de relacionamento familiar e desempenho escolar, as quais prejudicam seu desempenho e aprendizagem da forma significativa.

Para o profissional de saúde, é necessária a persistência do comportamento de pelo menos seis meses; início precoce (antes dos 7 anos); os sintomas têm que ter repercussão na vida pessoal, social ou acadêmica; têm que estar presente em, pelo menos, dois ambientes; frequência e gravidade maiores em relação a outras crianças da mesma idade; idade de 5 anos para diagnóstico.

Diante da complexidade do tema, é importante apontar parâmetros para a identificação do distúrbio, visto que há uma grande dificuldade em distinguir hiperatividade de outros problemas que geram agitação emocional do indivíduo, auxiliando no entendimento de que a capacidade de concentração depende, em boa parte, da integridade do sistema nervoso central (SNC). Esta varia, também, na dependência do grau de maturidade do cérebro e da personalidade. Constata-se que a criança e o pré-adolescente são menos capazes de se concentrar em uma determinada atividade por um período longo de tempo do que o são os adultos.

TDAH deriva de um funcionamento alterado no SNC, quando  as substâncias químicas produzidas pelo cérebro, os neurotransmissores, apresentam alterações  responsáveis pelas funções da atenção, impulsividade e atividade física e mental no comportamento humano. As crianças são agitadas, movendo-se sem parar na sala de aula, em casa ou qualquer outro lugar. Ainda existem os fatores biológicos, que não são genéticos, com destaque para o uso de álcool, drogas e determinados medicamentos, durante a gestação, por parte da mãe; nascimentos prematuros, hemorragia intracranianas e falta de oxigênio durante o parto. E, ainda, os fatores ambientais que interferem no desenvolvimento psicológico e emocional, bem como conflitos familiares, transtorno mental nos pais, baixa condição socioeconômica, criminalidade por parte dos pais, entre outros.

Existem crianças que são prejudicadas pela falta de conhecimento de educadores e/ou pais que acabam diagnosticando-as como hiperativas. Muitas crianças que pais e professores normalmente rotulam de “hiperativas” são apenas mais ativas que seus pais e professores foram ou desejariam que fossem. Aí o perigo da medicalização. A hiperatividade somente se manifesta quando existem comprometimentos na manutenção da atenção para diferentes atividades. A criança, por exemplo, que não presta atenção à aula, mas presta muita atenção em outros contextos, não revela distúrbio de atenção, típico da hiperatividade.

A avaliação clínica é considerada o padrão-ouro para o diagnóstico de TDAH, isto é,  diagnóstico do TDAH é essencialmente clínico, visto que não existem marcadores: exames laboratoriais ou de imagem que consigam definir a doença. A investigação envolve detalhado estudo clínico por meio de avaliação com os pais, com a criança e com a escola. Escalas de avaliação padronizadas para pais e professores podem ser utilizadas. A avaliação com os pais deve abranger uma história detalhada de todo o desenvolvimento da criança ou do adolescente.

O diagnóstico final deve ser elaborado por um profissional de saúde que tenha conhecimento para descartar outras doenças ou transtornos, além de afastar as  comorbidades:  ocorrência, em conjunto, de dois ou mais problemas de saúde mental. Por exemplo, cerca de 50% das crianças e adolescentes com TDAH apresentam problemas de comportamento como agressividade, mentiras, roubo, comportamento de oposição ou de desafio às regras e aos pedidos dos adultos. Além disso, o profissional deverá validar as informações dos demais colegas que acompanham o caso – psicólogo, terapeuta, educadores, psicopedagogos.

Apesar da necessidade do diagnóstico ser formulado por um profissional da saúde habilitado, isso não exime o professor de buscar conhecimento a respeito do assunto. O professor, na maioria das vezes, é o primeiro a identificar se o aluno tem os sintomas do TDAH. Essa identificação não pode ser superficial e baseada, apenas em atitudes e atos agitados. É preciso conhecer quais as definições, os sintomas e os meios de enfrentamento do distúrbio.

Dessa forma, entende-se a necessidade de debater esse tema na Educação, por se fazer tão presente na vida de muitos estudantes. É importante identificar os sintomas para ajudá-los a ter uma maior compreensão e aprendizado. Somente uma proposta didático-pedagógica que leve em conta as diferenças que estudantes com TDAH detêm ajudará na inclusão e na antecipação de problemas sociais, emocionais e psicológicos que, com certeza, afetam o processo ensino-aprendizagem.

Muitas vezes, os educadores se deparam com estudantes que possuem hiperatividade e não sabem lidar com eles em sala de aula, fazendo um pré-julgamento e confundindo o TDAH com mau comportamento, o que acaba prejudicando, de forma significativa, o processo de ensino-aprendizagem dos alunos. Por não serem identificados com esse transtorno e, por consequência, não terem identificadas suas dificuldades, esses estudantes não  conseguem se concentrar, questionar, refletir sobre um problema apresentado em sala de aula, o que os deixa “atrasados” em seus conteúdos em relação a seus colegas. Nessa situação, aumentam os índices de repetência, baixo rendimento escolar, evasão e dificuldades emocionais e sociais. Este é considerado um fator preocupante, pois é no ambiente escolar que a maioria dos jovens tem contato com a leitura e a escrita, o que exige atenção e concentração.

Uma vez diagnosticado, o aluno deve ser considerado uma criança com necessidades educacionais especiais, pois para que tenha garantidas as mesmas oportunidades de aprender como os demais colegas, serão necessárias algumas adaptações visando diminuir a ocorrência dos comportamentos indesejáveis que possam prejudicar seu progresso pedagógico.  O estudante com TDAH, assim como todos os outros, possuem seu próprio tempo de aprendizagem; porém, em sua maioria, os estudantes com TDAH precisam de um tempo maior para internalizar o que foi  ensinado. Nesse sentido, torna-se indispensável a intervenção do professor para que esse estudante não venha a se sentir inferior em relação aos outros integrantes da turma, bem como a turma não o caracterize como uma pessoa lenta e exótica.

Conhecer o estudante não beneficia, apenas, o jovem com TDAH, mas também o professor e os demais colegas, pois proporciona maior dedicação e disponibilidade do professor, o que reflete em atividades mais elaboradas e concretas. Todos são beneficiados, e o estudante com TDAH consegue adquirir um aprendizado significativo e estabelecer relações com seus colegas.

O professor tem papel fundamental  no desenvolvimento das habilidades e controle do comportamento da criança com TDAH. Desse modo, ele deve ser instruído, tanto na formação inicial como na continuada, como também deve ser auxiliado em sua prática pedagógica e deve ter conhecimento sobre o transtorno e as estratégias adequadas em sala de aula para que esses alunos sejam efetivamente inclusos na escola.

Quando a escola e a família trabalham juntas em função da superação dos distúrbios causados pelo TDAH, o tratamento será eficaz, e os resultados serão satisfatórios nas relações familiares, no convívio  escolar e nas contribuições sociais.

Dicas aos professores

– Criar agenda escola-casa (comunicação entre pais e professores)

– faça o aluno se sentar na frente na sala de aula, longe de janelas e próximo ao professor

– agende disciplinas mais difíceis no início das aulas (enquanto os alunos estão mais descansados e atentos)

– estipule pequenas pausas regulares a cada 40 minutos de aula

– ordens devem ser dadas de maneira objetiva e breve para facilitar o entendimento do aluno

– ensine técnicas de organização e estudo

– permita tempo extra para que esse aluno possa responder com atenção às perguntas

– estimule e reforce positivamente atitudes assertivas através de elogios

– questione o aluno sobre dúvidas em sala de aula

– convide o aluno a apagar o quadro-negro, para reduzir a inquietação.

Manual dos transtornos escolares. Teixeira G. 2014

 

Bibliografia

Maia MIR, Confortin H. TDAH e aprendizagem: um desafio para a educação. Perspectiva. Erechim. V.39,n.148. dezembro/2015

 

Mattos P. Neuropsicologia do transtorno de déficit de atenção/hiperatividade. In Neuropsicologia hoje / Org: Santos FH, Andrade VM, Bueno OFA. – 2.ed.  Porto Alegre: Artmed, 2015.

 

Reis GV. Alunos Diagnosticados com TDAH: reflexões sobre a prática pedagógica utilizada no processo educacional. Parnaíba, 2011.

 

Teixeira  G. Manual dos transtornos escolares. Entendendo os problemas de crianças e adolescentes na escola. 5.ed. Rio de Janeiro: BestSeller, 2014.

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